TALVEZ O PROBLEMA NÃO ESTEJA NO ELEITOR. TALVEZ ESTEJA NA FALTA DE UM PROJETO POLÍTICO CONSTRUÍDO QUATRO ANOS ANTES DA ELEIÇÃO.
em 07/10/2026 as 14:00
Cáceres vai amargar mais quatro anos sem um representante diretamente identificado com o município na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. E, como acontece depois de praticamente toda eleição, começam as explicações: culpa-se o vereador, culpa-se o partido, culpa-se a divisão das candidaturas e, sobretudo, culpa-se o eleitor cacerense, sob o velho argumento de que "Cáceres não vota em candidato de Cáceres".
Mas será mesmo?
Talvez tenha chegado a hora de inverter essa pergunta.
Em vez de perguntar por que o eleitor não votou nos candidatos da terra, deveríamos perguntar o que os nossos candidatos fizeram durante os quatro anos anteriores para conquistar a confiança desse eleitor e, principalmente, para construir uma candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras de Cáceres.
OS NUMEROS MOSTRAM O TAMANHO DO PROBLEMA
Cáceres apresentou nada menos que 12 candidaturas ligadas ao município para deputado estadual em 2026. Somadas, elas alcançaram 21.036 votos em todo o Estado.
Cezare Pastorello liderou entre os nomes locais, com 5.948 votos. Valdeniria Dutra teve 3.357; Tulio Fontes, 3.162; Jeronimo Goncalves, 2.946; Luciene Neves, 1.746; Marcos Ribeiro, 1.268; Pastor Sargento Gualterney, 772; Marcinho Lacerda, 763; Missionaria Elaine Belussi, 514; Julio Panoff, 251; Dra. Ana Rosa Job, 224; e Girlane Silva, 85 votos.
So esse numero ja merece reflexao: foram 12 candidatos para produzir, juntos, pouco mais de 21 mil votos.
Enquanto isso, Valmir Moretto foi reeleito com 37.653 votos, e Alcino Barcelos chegou a Assembleia com 22.624 votos.
Ou seja, Alcino sozinho obteve mais votos do que a soma das 12 candidaturas estaduais identificadas com Caceres.
E existe outro dado ainda mais revelador: Moretto foi o candidato a deputado estadual mais votado dentro da propria Caceres, com 5.166 votos, superando individualmente varios candidatos locais dentro do territorio onde, teoricamente, estes deveriam possuir sua principal base eleitoral.
Isso nao pode ser explicado simplesmente dizendo que "o eleitor de Caceres nao valoriza quem e daqui". Existe algo muito mais profundo acontecendo.
NAO E APENAS VOTO. E ESTRUTURA.
Quando olhamos os recursos disponiveis para as campanhas, a diferenca de musculatura politica tambem aparece.
Nas prestacoes de contas disponiveis, Moretto declarou aproximadamente R$ 1,27 milhao em receitas de campanha, enquanto Alcino Barcelos declarou cerca de R$ 829 mil. Moretto tambem chegou a aproximadamente R$ 1,2 milhao em despesas contratadas, demonstrando uma estrutura compativel com uma campanha verdadeiramente estadual.
Entre alguns dos principais candidatos de Caceres a deputado estadual, a realidade financeira foi bem diferente.
Cezare Pastorello teve 5.948 votos e declarou aproximadamente R$ 138 mil em receitas de campanha.
Valdeniria Dutra teve 3.357 votos e declarou R$ 207 mil.
Tulio Fontes teve 3.162 votos e declarou R$ 393 mil.
Jeronimo Goncalves teve 2.946 votos e declarou R$ 217 mil.
Luciene Neves teve 1.746 votos e declarou R$ 75 mil.
Marcos Ribeiro teve 1.268 votos e declarou R$ 97 mil.
Pastor Sargento Gualterney teve 772 votos e declarou R$ 52,5 mil.
Marcinho Lacerda teve 763 votos e declarou R$ 73 mil.
Missionaria Elaine Belussi teve 514 votos e declarou R$ 85 mil.
Julio Panoff teve 251 votos e declarou R$ 23,4 mil.
Dra. Ana Rosa Job teve 224 votos, sem movimentacao localizada na atualizacao consultada.
Girlane Silva teve 85 votos e declarou R$ 30 mil.
Os valores correspondem a receitas declaradas em prestacoes parciais disponiveis antes do fechamento definitivo das contas eleitorais.
Nao estou dizendo que eleicao se compra com dinheiro. Evidentemente nao.
Uma campanha milionaria pode fracassar e uma campanha modesta pode surpreender. Mas tambem seria ingenuidade imaginar que uma candidatura estadual competitiva possa prescindir de estrutura, comunicacao, deslocamento, equipe, articulacao partidaria e presenca territorial.
Dinheiro nao substitui lideranca, mas uma lideranca que pretende disputar um Estado inteiro precisa de organizacao e estrutura.
E talvez a maior diferenca nem esteja no dinheiro.
Moretto nao comecou sua campanha em 2026. Ha anos mantem relacoes politicas em Caceres e em diversos municipios do Oeste e Sudoeste, participa de articulacoes regionais e direcionou, entre 2023 e 2026, aproximadamente R$ 7,7 milhoes em emendas para Caceres, segundo dados compilados a partir da execucao orcamentaria estadual.
Pode-se gostar ou nao de Moretto. Pode-se discordar politicamente dele. Mas uma coisa precisa ser reconhecida: ele construiu base.
MORETTO NAO DESCOBRIU CACERES NA ELEICAO
E sabido no meio politico local que Moretto mantem ha anos uma relacao estreita com liderancas de Caceres e de toda a regiao.
Conversa com prefeitos, vereadores, secretarios, coordenadores e liderancas comunitarias, participa de demandas municipais, leva emendas e constroi relacoes que nao comecam quando aparece o primeiro santinho eleitoral.
Sua atuacao alcanca municipios como Caceres, Pontes e Lacerda, Vila Bela da Santissima Trindade, Comodoro, Nova Lacerda, Campos de Julio, Jauru, Porto Esperidiao, Araputanga, Mirassol D'Oeste e Sao Jose dos Quatro Marcos, entre outros.
E justamente aqui que esta a diferenca fundamental.
Moretto nao vai a Caceres pedir para ser apresentado ao eleitor. Ele ja esta inserido politicamente em Caceres quando a eleicao chega.
Enquanto muitos candidatos locais passam o primeiro periodo de campanha tentando organizar equipe, conseguir apoio, estabelecer dobradinhas e se apresentar aos municipios vizinhos, candidatos regionais consolidados simplesmente ativam redes construidas durante anos.
ALCINO ENTENDEU OUTRA COISA: COMUNICACAO TAMBEM E POLITICA
Alcino Barcelos seguiu uma estrategia diferente.
Ex-prefeito de Pontes e Lacerda por dois mandatos, ja possuia uma base politica consolidada naquele municipio e conseguiu amplia-la.
Em 2020, havia sido reeleito prefeito com 16.761 votos, equivalentes a 80,78 por cento dos votos validos de Pontes e Lacerda.
Em 2026, transformou esse capital politico em uma candidatura regional e conquistou 22.624 votos para deputado estadual.
Alem disso, percebeu uma caracteristica da politica contemporanea que muitos ainda ignoram: comunicacao nao e acessorio de campanha; comunicacao e construcao de lideranca.
Alcino adotou um jeito simples, direto, popular, muitas vezes caipira e "sincerao", falando nas redes sociais numa linguagem semelhante a de parcela importante de seu eleitorado.
Ha quem goste e ha quem nao goste, mas isso e absolutamente secundario para esta analise.
Ele criou uma identidade.
Nao tentou parecer aquilo que nao e. Construiu uma personagem politica reconhecivel, criou audiencia, circulou pela regiao e chegou a eleicao dentro de um partido eleitoralmente forte.
O resultado foi a cadeira na Assembleia.
E OS VEREADORES? A CULPA E DELES?
Nesse ponto, confesso que tendo a "passar pano" para boa parte dos vereadores de Caceres, porque a politica real funciona de maneira muito diferente da politica idealizada.
Durante quatro anos, vereadores precisam de deputados estaduais e federais para encaminhar demandas, conseguir emendas, abrir portas no Governo do Estado, viabilizar obras e atender associacoes e comunidades.
Se determinado deputado atende aquele vereador durante todo o mandato, e natural que surja entre eles uma relacao politica.
Entao, faltando poucos meses para a eleicao, aparece um candidato local dizendo: "Voce precisa me apoiar porque sou de Caceres".
Mas onde estava esse candidato durante os tres anos anteriores?
Qual demanda daquele vereador ajudou a resolver?
Qual comunidade visitou?
Que porta abriu?
Que recurso ajudou a trazer?
Que relacao construiu?
Politica tambem e reciprocidade. Nao se pode cobrar fidelidade de quem nunca recebeu presenca.
Existem excecoes, evidentemente.
No PL, por exemplo, pode-se discutir se os vereadores eleitos muito vinculados a onda bolsonarista de Caceres nao deveriam ter construido uma unidade partidaria maior em torno da candidatura estadual local, inicialmente Ricardo e, posteriormente, Jeronimo.
Existe ai uma questao de coerencia politica e partidaria que merece discussao.
Mas isso e diferente de simplesmente dizer que todo vereador que apoiou alguem de fora "traiu Caceres".
A DISPUTA FEDERAL MOSTRA OUTRO PROBLEMA
Na eleicao para deputado federal, Caceres tambem colocou nomes relevantes na disputa.
Iraja Lacerda recebeu 57.887 votos, Dr. Leonardo 31.102, James Cabral 12.376, Magaly 1.843 e Doutora Debora 840 votos.
Mesmo com votacoes expressivas, especialmente de Iraja, nenhum deles conquistou uma das oito cadeiras de Mato Grosso na Camara Federal.
Quando observamos a estrutura financeira dessas campanhas, temos outro quadro interessante.
Iraja Lacerda recebeu 57.887 votos e declarou R$ 1,65 milhao em receitas de campanha.
Dr. Leonardo recebeu 31.102 votos e declarou aproximadamente R$ 2,37 milhoes.
James Cabral recebeu 12.376 votos e declarou aproximadamente R$ 131,6 mil.
Magaly recebeu 1.843 votos e declarou aproximadamente R$ 908 mil.
Doutora Debora recebeu 840 votos e declarou aproximadamente R$ 166 mil.
Os valores correspondem as declaracoes localizadas nas fontes consultadas antes do fechamento definitivo das contas.
Esse quadro e extremamente interessante porque demonstra outra verdade eleitoral: dinheiro tambem nao garante voto.
Magaly, por exemplo, aparece com aproximadamente R$ 908 mil arrecadados e terminou com 1.843 votos, enquanto James Cabral, com estrutura financeira muito menor, obteve 12.376.
Iraja, com R$ 1,65 milhao, chegou a 57.887 votos, mas mesmo essa votacao nao foi suficiente para uma cadeira.
Portanto, o problema e muito mais complexo do que "faltou dinheiro" ou "faltou o eleitor votar em quem e daqui".
Eleicao proporcional envolve nome, trajetoria, partido, quociente, estrutura, base territorial, comunicacao e capacidade de ampliar votos para alem do municipio de origem.
O CANDIDATO DE CACERES PRECISA EXISTIR ANTES DA ELEICAO
Esse, para mim, e o centro de toda a discussao.
Alguns candidatos parecem nascer politicamente poucos meses antes da votacao.
De repente surgem fotografias, adesivos, videos, reunioes, jingles, carreatas e pedidos de apoio.
Mas onde estava aquele projeto nos quatro anos anteriores?
Quem pretende ser deputado por esta regiao deveria possuir bases em Mirassol D'Oeste, Sao Jose dos Quatro Marcos, Araputanga, Curvelandia, Lambari D'Oeste, Rio Branco, Salto do Ceu, Jauru, Reserva do Cabacal, Porto Esperidiao, Vila Bela e Pontes e Lacerda, entre outros municipios.
Nao basta visitar essas cidades em setembro e pedir votos.
E necessario conhecer prefeitos, vereadores, entidades, produtores, comerciantes, liderancas comunitarias e, sobretudo, os problemas especificos de cada municipio.
Um deputado estadual nao e eleito apenas porque sua cidade natal resolveu gostar dele.
E preciso transformar uma lideranca municipal em uma lideranca regional.
E QUAL E A BANDEIRA DOS NOSSOS CANDIDATOS?
Mesmo dentro de Caceres, existe uma pergunta que precisa ser feita: quais grandes pautas os nossos pretensos representantes carregaram permanentemente nos ultimos quatro anos?
Quem se tornou a voz publica da ZPE?
Quem assumiu a defesa do Porto de Caceres?
Quem liderou politicamente a discussao da Perimetral, da Orla, do Viaduto da Sao Luiz, do desenvolvimento economico, do turismo, da saude regional, da geracao de emprego, da infraestrutura urbana ou da integracao fronteirica?
Nao basta publicar uma fotografia sobre esses temas na campanha.
Lideranca significa assumir uma causa quando ainda faltam tres anos para a eleicao, organizar reunioes, cobrar autoridades, reunir empresarios, universidades, sindicatos, associacoes, vereadores, prefeitos e Governo do Estado, acompanhar cada etapa e manter a populacao informada.
E assim que o cidadao comeca a associar determinada pessoa a uma determinada luta.
Tambem nao e necessario que tudo seja uma obra de centenas de milhoes de reais.
Lideranca pode nascer de um projeto esportivo, de uma campanha permanente de alimentos, de um sopao, de uma associacao, de uma causa empresarial, cultural, ambiental ou comunitaria.
Quem pretende representar uma populacao precisa, antes de tudo, participar da vida dessa populacao.
FRANCIS: UMA OPORTUNIDADE QUE NAO SE TRANSFORMOU EM PROJETO REGIONAL
Caceres ja teve oportunidades muito concretas de construir representantes fortes.
Uma delas ocorreu no auge politico de Francis Maris.
Independentemente da avaliacao que cada cidadao faca posteriormente de sua trajetoria, durante especialmente seu segundo mandato como prefeito havia uma percepcao regional muito forte de sua administracao.
Seu nome ultrapassava as fronteiras de Caceres e era conhecido em municipios vizinhos.
Naquele momento existia capital politico suficiente para construir uma candidatura estadual extremamente competitiva e, talvez, ate uma candidatura federal.
Em 2022, mesmo fora da Prefeitura, Francis ainda foi o candidato a deputado estadual mais votado dentro de Caceres, com 12.926 votos somente no municipio.
Isso mostra o tamanho da forca politica que havia sido construida.
Mas, em vez de transformar aquele capital em um projeto regional organizado e duradouro, o grupo politico acabou se fragmentando.
Houve disputas internas, mudancas de aliancas e dificuldades para preservar a unidade da base que havia sido construida durante os anos de governo.
NAKAMOTO E A FORCA QUE NAO FOI ORGANIZADA
Depois tivemos outro fenomeno politico que merece analise: o Engenheiro Nakamoto.
Independentemente de qualquer preferencia pessoal, havia nele uma caracteristica rara na politica local: voto espontaneo e forca carismatica.
Em uma disputa municipal, com recursos extremamente limitados diante das grandes estruturas eleitorais, conseguiu enfrentar uma maquina politica muito mais robusta e demonstrou capacidade de mobilizacao.
Posteriormente, quando seu nome voltou a aparecer como possibilidade eleitoral, Caceres novamente nao conseguiu organizar um projeto coletivo ao seu redor.
Surgiram diversas candidaturas, interesses partidarios distintos e estrategias pessoais.
Em vez de identificar qual nome possuia maior capacidade de atravessar as fronteiras do proprio grupo e investir quatro anos na construcao dessa lideranca, a politica local voltou a pulverizar suas forcas.
E claro que nunca saberemos se Nakamoto seria eleito. Politica nao permite esse tipo de certeza.
Mas o que se pode afirmar e que liderancas com voto espontaneo deveriam ser estudadas e trabalhadas politicamente, e nao simplesmente desperdicadas entre uma eleicao e outra.
O PROBLEMA NAO E TER MUITOS CANDIDATOS. E NAO TER UM PROJETO
Democracia pressupoe pluralidade, e ninguem deveria ser impedido de concorrer porque determinado grupo resolveu escolher um "candidato oficial da cidade".
Essa nao e a solucao.
O problema nao e juridicamente ou democraticamente Caceres ter 12 candidatos.
O problema e chegar a uma eleicao com 12 candidatos e praticamente nenhum deles possuir, previamente, uma estrutura regional suficiente para disputar uma das 24 cadeiras.
A propria soma dos resultados deixa isso evidente: 12 candidaturas estaduais locais produziram 21.036 votos; Alcino sozinho chegou a 22.624, e Moretto a 37.653.
O problema, portanto, nao e quantidade de candidaturas.
E densidade politica.
ESTAMOS OLHANDO MAIS PARA A PREFEITURA DO QUE PARA A ASSEMBLEIA?
Tambem existe uma impressao dificil de ignorar.
Muitas das nossas liderancas politicas parecem estar muito mais preocupadas com a sucessao de Eliene Liberato Dias e com a cadeira de prefeito de Caceres do que verdadeiramente comprometidas com a construcao de uma vaga na Assembleia Legislativa.
Isso produz uma distorcao.
O candidato a deputado estadual passa a utilizar a eleicao estadual como teste de nome, instrumento de posicionamento partidario ou preparacao para uma futura eleicao municipal, enquanto a construcao regional necessaria para conquistar a Assembleia fica em segundo plano.
Mas os objetivos sao diferentes.
Para ser prefeito de Caceres e preciso dominar politicamente Caceres.
Para ser deputado estadual e necessario construir uma regiao.
Enquanto nao compreendermos essa diferenca, continuaremos lancando candidatos municipais para disputar eleicoes estaduais.
FALTAM LIDERES PARTIDARIOS, NAO FALTAM CANDIDATOS
Talvez esse seja o diagnostico mais duro.
Caceres nao sofre de falta de candidatos. Sofre de falta de lideranca politica capaz de planejar oito ou doze anos a frente.
Um verdadeiro lider partidario deveria identificar potenciais candidatos, formar novos quadros, aproximar vereadores, conversar com empresarios e liderancas comunitarias, estabelecer pontes com os municipios vizinhos, escolher pautas regionais e construir uma rede permanente de comunicacao.
Deveria pensar nao apenas na proxima eleicao, mas em como seu grupo estara politicamente daqui a quatro, oito ou doze anos.
O que nao funciona mais e reunir pessoas seis meses antes da eleicao, escolher um nome, imprimir material e esperar que o sentimento de bairrismo faca o restante.
Candidatura sem base e aventura eleitoral.
O ELEITOR MUDOU E A POLITICA PRECISA ENTENDER ISSO
Durante decadas, a politica de Mato Grosso foi dominada por grandes grupos, familias tradicionais, caciques e coroneis eleitorais.
Muitos desses sobrenomes ainda possuem forca, evidentemente, mas ja nao existe a transferencia automatica de votos que existia no passado.
O eleitor contemporaneo quer enxergar alguma coisa concreta: trabalho, presenca, identidade, posicionamento, comunicacao ou servico prestado.
Pode-se discordar completamente das ideias de Alcino, Moretto, Cattani ou qualquer outro eleito.
Mas todos eles possuem algo muito claro: o eleitor sabe quem sao, o que representam e onde estao suas bases.
Essa talvez seja uma das maiores transformacoes da politica atual.
Sobrenome nao basta.
Fotografia ao lado de cacique nao basta.
Ser "filho da terra" nao basta.
E preciso construir pertencimento.
AFINAL, DE QUEM E A CULPA?
Talvez essa seja justamente a pergunta errada.
Nao precisamos encontrar um culpado para sacrificar depois de cada eleicao.
Nao e somente o eleitor, nao sao apenas os vereadores, nao sao exclusivamente os partidos e tampouco sao apenas os candidatos.
O que existe e um problema estrutural de organizacao politica.
Caceres nao precisa simplesmente de um "candidato de Caceres".
Precisa construir uma lideranca de Caceres para toda a regiao.
Uma lideranca que nao procure os municipios vizinhos apenas quando precisar de votos; que nao descubra a ZPE tres meses antes da eleicao; que nao se lembre das associacoes somente durante a campanha; que nao procure vereadores apenas para pedir apoio; que tenha causas, grupo, comunicacao, presenca territorial e historico de servicos prestados.
Representatividade nao e endereco eleitoral.
Representatividade e pertencimento, presenca, confianca e trabalho.
2030 JA COMECou
Se Caceres realmente pretende voltar a ter um deputado estadual em 2030, esse projeto precisa comecar em 5 de outubro de 2026, nao em julho de 2030.
E necessario escolher bandeiras, construir grupo, aproximar vereadores, conversar com prefeitos, entrar nos municipios vizinhos, formar liderancas, participar das demandas da populacao e permanecer presente justamente no periodo em que ninguem esta pedindo voto.
Moretto nao recebeu 37.653 votos porque comecou a trabalhar tres meses antes da eleicao.
Alcino nao chegou aos 22.624 votos simplesmente porque resolveu abrir uma conta em rede social durante a campanha.
Existe historia, estrutura, base, comunicacao e relacionamento por tras desses numeros.
Enquanto Caceres estiver discutindo quem sera candidato, outros grupos politicos ja estarao discutindo como ampliar a base do candidato que escolheram anos antes.
Essa e a diferenca.
Que 2026 nao produza apenas mais quatro anos de reclamacoes sobre o eleitor, os vereadores e os candidatos de fora.
Que produza aprendizado, organizacao e maturidade politica.
Porque, se Caceres realmente quiser uma cadeira na Assembleia Legislativa em 2030, nao havera milagre eleitoral capaz de substituir quatro anos de trabalho.
A eleicao de 2030 ja comecou.
Por Dr. Ledson Catelan/Advogado
Discussão (0)
Este site acompanha casos policiais. Todos os conduzidos são tratados como suspeitos e é presumida sua inocência até que se prove o contrário. Recomenda-se ao leitor critério ao analisar e comentar as reportagens.
Desta forma os comentários aqui postados por nossos respeitosos leitores são de inteira responsabilidade civil e criminal dos mesmos.